sexta-feira, 9 de março de 2012

Fale o que quiser

Aqueles adolescentes eram "papagaios", viviam a catar/engolir/decorar palavras em diversos diálogos do cotidiano. No meu curso ginasial alguns professores nem sabiam falar/escrever. Um mundo de erros gramaticais que nem a escola podia corrigir. E com os ouvidos cansados de tanto "barulho", sentenciei: "quero ler e escrever corretamente”. Mas a pele da sociedade é rachada pela doença da mal educação, vítima de um fazer governamental errante, que perdura década após década. Gosto de anotar esses dizeres, grafados pela fome, mal pintados pelo carvão. As palavras ditas erradas estão à beira do caminho, nas rodovias, nas paredes das casas humildes: fala costumeira e visceral do nosso povo. Entendo bem essa fala/escrita emboloada, trazida pelo vento, colonizada, misturada. Professor é um mediador, não único detentor do saber, portanto, busquemos os livros que são agentes da transformação. Erro de gramática é acerto da linguística, e não são apenas palavras que perdem as pernas: a nação é construída por homens coxos e defeituosos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A marginal do teatro

Às 10:30h eu estava entrando no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa-Pb. Dercy estava sentada no centro do palco, dirigindo a montagem do cenário: volumosas cortinas prateadas. Entre conversas e fotos, o encontro durou uma hora. Entreguei-lhe um texto entitulado "Dercy: novent'anos é flor", que ela rapidamente assegurou: "Isso daqui vai para o meu museu em Santa Maria Madalena". À noite retornei para ver o show e todo mundo derreteu-se em risadas. Sentado na primeira fila, uma bolsinha brilhava sobre uma poltrona, a meu lado, e minha amiga ousou abrir: estava recheada de notas de R$ 100,00, e que pertencia à artista, a qual foi imediatamente entregue. Dercy vinha do tempo das vedetes, do teatro rebolado, da Praça Tiradentes (Rio), época em que essas artistas eram vistas como prostitutas:  "eu tinha até carteirinha...", enfatizou. As famílias não podiam ver o show de Dercy, o que fez a comediante passar 40 anos renegada: "Hoje todos me aplaudem, chamam tudo isso de arte", delira. Mas o palavrão não era devassidão, este estava mais ligado à sobrevivência; o povo tinha que rir de qualquer maneira, e consequentemente movido pelo humor que brotava do talento de Dercy, que nasceu Dolores: "Parece nome de puta espanhola". O show contava toda a sua trajetória artística, desde o dia em que fugiu da terra natal, quando escondeu-se debaixo de um vagão de trem, mas os cães a denunciaram... Tentava alcançar um grupo de teatro mambembe. Cantora de igreja, vendia ingressos no cinema local e pintava os  olhos como as atrizes do cinema mudo. Não queixava-se da vida, brincava com o passado: "Aprendi a viver como as galinhas, ciscando, ninguém me ensinou nada, pô". Da vida dura pelos palcos afora, até se erguer como comediante respeitada, passou por "poucas e boas": "A vida inteira trabalhei apenas para sobreviver, hoje é que trabalho para viver". Nessa época, há mais de anos, eu havia ido ao Rio, e quando eu passava em frente à casa de espetáculos, o Canecão, lia-se: "Canecão apresenta Dercy Gonçalves". E como a vida inteira eu quis conhecer aquele fenômeno, jurei a mim mesmo: vou encontrar essa danada... E chegou o dia do encontro e da risadagem, muito mais de lição de vida da maior marginal do teatro.



Imagem: arquivo pessoal

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Marca D'água


- Poesia -

 Romarias e Imagens Eternas
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Apresentação
 Nivaldete Ferreira*

Em tempos de desterritorialização, de perda dos rostos locais e dos lugares de origem, de uma globalização que tinge do mesmo as existências gerais por efeito de uma disposição homogeneizante que tende a ignorar e mesmo a tiranizar as singularidades, eis que vem o poeta caminhando na contramão, conduzindo seu tição aceso com que ilumina a nossa cegueira diante dos viveres sempre-vivos, que são aqueles que a imaginação poética arranca do solo da memória e da observação -com todos os sentidos- e nos oferece no frescor do seu aroma.
O poeta aqui faz uma romaria. Ele é um religioso, mas não no sentido convencional. Religião (do latim religio, cognato de religare) quer dizer religação. Ele religa os de sua comunidade poética, como um arqueólogo/restaurador que arruma o sítio de suas percepções e vai nos levando a cada estação. O lugar de que fala tem um nome –Nova Palmeira, mas mesmo levantando o véu dos rostos locais – como a justiceira -, esse lugar e esses rostos resultam universais justamente porque o poeta fala da humanidade. Que importa o topos? “As roupas estendidas, hasteadas,/São bandeiras de muitas pátrias”, ele diz. Poderia ser nos afastados do Egito, de Portugal, de Uganda. Porque em todos os rincões há personagens singulares, há solidariedade ao morto, há os da feira, há procissões e bebedeiras, há cantorias, há falações, surrealidades, há, sobretudo, o espírito dionisíaco –que vejo como a marca mais definitiva dessa poesia de Borges.
Vêem-se sempre dois olhos brilhando e um sorriso como marca d´água nos seus textos, mesmo quando fala do quase triste, do circo pobre, por exemplo, e do seu palhaço: “O rosto pintado não é só alegoria: / a vida usa máscara dia-a-dia”- (um filosofema irônico) ou do religioso clássico. “As santas estão maquiadas, / trajadas a passeio, laqueadas:/ são retratos de mulheres/  veneradas, canonizadas”.
Dionisio é o da festa, o transgressor, o dos arroubos, da embriaguez, dos perigos, do caos. “No meio da rua a vida devassa:/ Gente em algazarra de cachaça”. Ou “A rua está louca, embriagada: / Não obedece a nenhuma lei”. Ou ainda: “É bola, bolacha, bosta, bicho:/ Na palha da feira, dentro do lixo”.
Nada de borgeios de si mesmo (Borges), nada de poesia em primeira pessoa, nada desse eu enfadonho pretensamente lutando contra a anomia quando o que quer mesmo é se exibir. Até me atrevo a dizer que o poeta fala melhor de si quando de si não fala... O poeta, aqui, olha para fora, e não escondido, mas como participante. Escreve o que está inscrito em seu corpo, que misturou com a terra e os outros.
Seu olhar, por ser de poeta, não é, por isso mesmo, um olhar passivo, no sentido em que fala Cassirer, mas construtivo. O poeta parece mesmo estar por trás de uma câmera, flagrando gestos, fazeres, formulando interpelações, possuído pelo thaumazéin, pelo espanto - condição que, para os gregos, gerava o filósofo, mas a tem igualmente a criança. É o poeta, assim, um operador de visões. Generosamente, dá-nos ele esse documentário poético.     

E ainda cria endereços da vida: “Na rua do passatempo”.
 “Nesta casa sem lona, destelhada / Mora a felicidade: gargalhada”.

A vida, afinal, pode ser um circo a céu aberto.
Dionisiaca-mente!

* Professora do Departamento de Artes da UFRN; autora de Sertania e Trapézio (poesias), Bárbara Cabarrús (romance), entre outros.

sábado, 9 de julho de 2011

A tristeza do poeta

 

“Sei que amanhã quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração...” (Nelson Cavaquinho)


1.
Com que roupa eu vou à cova?
De terno branco, camisa amarela
e gravata borboleta; teci a touca,
a luva e o cravo rosa da lapela.

2.
Mas é bobagem, loucura
vestir-se, assim, com pompa
em dia triste de clausura
como andasse em passarela.

3.
Muitos prestigiam dia de morto
com agrados e olhares de pena:
choram irmãos, amigos sinceros;
hora dos abutres, raposas, hienas...

4.
Estarei mudo, cego e mouco,
quando eu morrer, qualquer dia:
dispenso visita, ladainha, choro,
cantarola, oratória, demagogia...

5.
Quero ir des(bota)do, despido
sem flor aromada, tapa-sexo;
mortalha é luxo, roupa de festa,
mãos minhas irão sem terço?

6.
Quero meus pés descalços,
roxos, nus, cheios de calos;
mostrando os cortes, a lama
e os esporões-de-galo.

7.
Não quero pedra polida,
caliça, cimento, concreto;
quero a terra escorrida
caída sobre meus ossos.

8.
Escrito na lápide de ferro
meu nome será pisado;
apontarão os meus erros
em dia insosso de finado.

9.
Meus versos serão guardados
como relíquias, cânone, legado?
Decerto serão menos lidos,
meus livros serão queimados?


Imagem: limacoelho.jor.br


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Olho D'água

a Ivam Cabral e Ricardo Soares

“Amanhã vou lavar roupa no olho d’água; dia de acordar cedo pra botar água em bacia”– disse a mãe. “Tou de corpo quente, rasguei o lombo do pé num arame enferrujado de alpercata”, respondeu o menino, fazendo sua defesa vesperal.  Mas as lavadeiras madrugavam e no raiar do dia desceram a ladeira, cruzaram as pedras ocas, o quebra-cabeças e o passadiço. Ruínas d'uma tapera eram também amontoado de recordações...  Os astros tinham os mesmos rostos, mas em outubro via-se uma promessa de chuva:  uma caraibeira os saudou com flores amarelas derramadas na vereda; agave e macambira pendoando. Exilados estão os pássaros?
Ave de rapina - sonsa e solitária - sonda... O menino passou o dia com os pés atolados na água azeda e salobra do olho d’água; ao meio dia queixava-se de febre, comeu curimatã. Fermentação de mijo de jias, cabras e reses; boiavam ovos de cágado, teju e camaleoa; todo bicho babava no único bebedouro das secas: olho a encher-se de milágrimas, onde suja lua ancorava, banhava-se na retina.  Ouvia-se a fala do olho d'água, alma também tinha; zoada de vasilhas e chocalhos, vai e vem de mulheres entoando cantigas com suas cabaças... Latas-d'água na cabeça eram jóias mareadas; meninos quase aleijados, carregando os patíbulos dos galões; açoitados iam-se os jumentos: barris eram ogivas amarradas às cangalhas.
Nascera entre duas serras, amado era por todos os sedentos; tão salgado que cortava o sabão em pedra, uma coalhada que escorria dos lavatórios por entre a grama selvagem. Lençóis e redes, no quarador, eram pátrias ensaboadas; saias de cinelite e blusas de lamê maretavam; molambos de toda cor pareciam florescer os xiquexiques; com zelo maior lavavam as roupas brancas – submersas peças nupciais –, que demoravam na alquimia d’uma bacia de anil: em mastros de jurema eram bandeiras imaculadas. E tropeiros se arranchavam na várzea-dormitório: especiarias brejeiras derretiam-se, adoçando o salitre; chão aromado de aguardente. À noite caçadores iam-se a matar, e de madrugada lavavam os bisacos ensanguentados; cães arrastando vísceras e cabeleiras, lambendo luas desmioladas de crânios e carapaças. Talvez os últimos bichos da caatinga: partilha, covardia, brasa acesa de manhã. As tabocas que rodeavam o poço, serviam de tocaia às aves perdidas e loucas, arribadas de outras emboscadas. Naquele ano a ventania levou as cumeeiras dos alçapões e aterrou os quixós.
Os banhos rurais eram programados: fendas de pedras e moitas escondiam os nus da sexta-feira... Não fora cavado pelos moradores nem herdeiros ousavam proibir a demanda da água. O mar estava alí: mínimo olho-oceânico; em raros invernos vestia-se de musgos. E jaçanãs retornavam ao poço quando rebentavam os Água-pés. Misterioso moinho movia a água, em silêncio: poço universal.

Imagem: arquivo do autor

domingo, 10 de abril de 2011

Koisas do Estrangeiro


Sempre fui contra ao uso de estrangeirismos em nossa língua; às vezes inevitáveis, pelas fortes influências americana e europeia; uma dependência que se arrasta pelos países de terceiro mundo. Nas avenidas de cidades brasileiras observo que é comum vê nomes de lojas com perfil estrangeiro, o que descaracteriza a língua e inferioriza uma nação. Ex: Le femme, La Maison, Le Mans, Restorante La Tratoria, Coiffeur, etc. Gosto de ver nomes como Maria Bonita, Pé de Moleque, Pé Louko, etc. Aqui no Brasil, uma cliente chega num salão de beleza e não entende o que é sala de Make up; exceto que seja em Shopping center ou hotel luxuoso, dos grandes centros do país, onde há entrada/saída de visitantes com variações linguísticas. A maioria dessas palavras é atrativo comercial. "Vou ao toillet": diz-se assim desde menino.
O que é onda se vai, explode à margem. Às vezes, o que vem do estrangeiro tem efeito tsunami, devastador. E com modismo é assim... E essas influências são filtradas, absorvidas, mesmo que se afoguem nossos costumes. Interessante é a incorporação de uma palavra  estrangeira à outra língua, que misturada ao  idioma se nacionaliza. E se dá para remar sem naufragar, está muito bom... "Mas chega o momento em que o copo está cheio e não dá mais pra engolir": slongans, marcas, rótulos, altas ondas... Meu falar é genérico e outros têm miolo (ôpa! Água, mar? Quase que saía 'molo', que é cais em italiano). O certo é que nenhuma língua escapa da invasão de outras línguas, mesmo que seja "disse-me-disse" (risos): palavra é náusea? Vomita-se mais em português... Apesar da historicidade, dos mares limpos de algumas línguas, da imposição e da olaria suja de outras, nenhuma língua nasceu em berço de ouro: língua-anfíbia, parideira. Bye, Ciao, até logo.

imagem:jornale.com.br