sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Saudade no Brasil

Elis Regina Carvalho Costa, série Grandes  Nomes, TV Globo 1980
                                              a José Roberto Sarsano

Nesse ano novo que está chegando, a saudade de Elis Regina é evidente, quando se rememora sua morte, ocorrida em 19 de janeiro de 1982, em São Paulo. Em 1980 a cantora estreava o show Saudade do Brasil, na casa de espetáculos o Canecão, no Rio de Janeiro, coroando-se com uma das apresentações mais marcantes de sua carreira, depois de Falso Brilhante, em 1976. Era uma montagem voltada, essencialmente, para as 'coisas' do Brasil,  o que significa dizer que não é saudade de acontecimentos passados: "É saudade do que está aí vivo e solto, se não temos acesso a isso, é por falta de uma batalha maior...", declarou a artista. Então Saudade do Brasil, o show, completa trinta anos em 2010, a partir de sua estreia em março de 1980, mês do aniversário da cantora, que completaria 65 anos. A seleção do elenco para o show e os ensaios, ocorriam no Teatro Procópio Ferreira (SP), direção de Ademar Guerra.  As coreografias  ficaram sob o comando de Márika Gidalli, que junto com o renomado bailarino e diretor Décio Otero, se mantém à frente do Ballet Stagium: companhia de dança sediada em São Paulo. E, em 1988, para homenagear a cantora, exibiram nas principais cidades brasileiras, uma montagem chamada Saudade de Elis, que eu assisti no Teatro Severino Cabral, em Campina Grande-PB. Anos depois, o mesmo grupo, viajou com o espetáculo Anjos da Praça, em cartaz no Teatro "Paulo Pontes" do Espaço Cultural, em João Pessoa-PB, onde a veterana bailarina e coreógrafa, me falou dessa temporada no Rio  e de sua convivência com Elis:

"O Ballet Stagium estava apresentando Kuarup, criado em 1977, então todos foram assistir e isso influenciou alguns arranjos feitos por César Carmargo Mariano. 'Saudade do Brasil' foi um espetáculo criado por um grupo que a amava. Alí, no palco, ela retirou toda casca que a envolvia e se doou. Lembro-me que o compositor Gonzaguinha foi assistir a um ensaio, ficou encantado com 'O Primeiro Jornal' e começou  a escrever 'Redescobrir'. Era prazeroso vê-la dando tudo de si, num momento alto de sua carreira.  Acompanheio-os do Rio a São Paulo. E tenho mais o que dizer, acrescentar, mas é preciso retroceder no tempo..."

Encerra-se no Canecão para estrear no TUCA - Teatro da Universidade Católica.  Num cenário verde-amarelo de bananeiras, elenco e músicos usariam uma camiseta-pátria: Elis - Ordem; Regina - Progresso, encravados na bandeira brasileira, mas o campo verde era  substituído pelo luto. E diante dessa reivindicação política, em meio a fortes resquícios de ditadura,  não pôde circular como peça cênica. No mesmo ano, o álbum duplo com a íntegra do show, gravado em estúdio, é  lançado. E uma forte coincidência envolve essa edição: as caixas tiveram numerações limitadas de 01 a 25.000 exemplares, mais um libreto com fotografias  e letras das músicas. Obtive, exatamente, a de número 1982/0, que para um colecionador significa muito... Desmembrados depois, em dois volumes. Além de outro disco lançado em 1980, entitulado Elis, pela EMI-Odeon, a TV Globo põe no ar o especial Elis Regina Carvalho Costa, da série Grandes Nomes. A performance da cantora se dá sob o contexto circence; contudo, o especial transita pelo universo da brasilidade:  o locutor, formalmente, a anuncia como principal atração e ela  entra no "picadeiro", equilibrando-se numa corda-bamba imaginária. E segue mais afi(n)ada, maestrina de si mesma, insuperável. Os tecidos populares que vestem o Brasil - chita e bramante -, ornamentavam o cenário.  E neste dia a camiseta foi usada, discretamente, pelo diretor Daniel Filho, César...  O show foi muitíssimo aplaudido, marcado sobretudo, por sua comovente interpretação em Atrás da Porta, de Chico Buarque de Holanda, que inicialmente fora gravada no disco Elis 1972, período em que César Mariano se aproximou efetivamente da cantora. Mas, ironicamente, naquele momento estavam separados. E nesse universo introspectivo, cantora e mulher se confrontam: Elis se debulha em lágrimas, vivenciando, literalmente, o que é separação: "Quando olhaste bem nos olhos meus /E o teu olhar era de adeus, / Juro que não acreditei..."  Mas, na segunda parte do programa, Elis homenageou o pianista, convidando-o ao palco: piano e voz em Modinha (Tom Jobim) e Rebento (Gil).  Essas imagens foram ressuscitadas  em DVD, por João Marcelo Bôscolli, produtor da Trama. Em março de 1981, dentro da mesma série de apresentações da emissora, foi a vez do especial de Maria da Graça da Costa Penna Burgos, conhecida por Gal Costa, que a recebeu como convidada especial. Juntas cantaram Estrada do Sol (Dolores Duran e Tom Jobim), Amor até o Fim (Gil )e Ilusão à Toa de Johnny Alf.  "Eu sou a maior cantora do Brasil: 'Saudade do Brasil' foi o melhor espetáculo que eu fiz na vida" - assegura, do alto de sua maturidade musical. Elis se enterrou com o figurino proibido: mãos contraditórias, cruzadas sobre a pátria-coração, gesto de morte revolucionária. Saudade do Brasil, no entanto, prefigura saudade de Elis: "Quem grita, vive contigo..."




sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Rei do agreste


 
a Geraldo Maciel, in memoriam

                    
Ele guardava a fome da semana e chegava sorrateiro e pousudo.  E, em suas garras afiadas,  misturava inhaca e restos de caules  da manhã. Gostava de comer carne de galinhas e frangos cevados em chiqueiro, mas podia segurar  qualquer tola, que displicentemente beliscasse o pasto. Felinto sabia desses sumiços ousados,  mas se enfureceu quando viu o rastro  marcante do ladrão: um raio de sangue se arrastava entre  as manjeronas,  ensopando o feno incrustado de coroas de carrapichos. Era a maior denúncia, além dos vestígios que voavam sobre os xiquexiques, deixados pelas vítimas. Evitava se banquetear com as carnes deliciosas das aves: serviriam para complementar outras precisões maiores. O habitual era comer feijão macassar com rapadura e rejeitos bovinos. Às vezes ele puxava o pescoço de uma galinha mais velha, infecunda, rota de botar ovos. E o manda-chuva do terreiro, um dia seria subestimado pelos solteirões, que tentavam tomar posse do harém: essas rebeliões demonstravam o enfraquecimento daquele que estava há três anos no  reinado, além das deficiências normais da velhice. Diante desses subterfúgios, o galo morreria em qualquer manhã e um outro se assentaria no trono sujo dos poleiros, cantaria com a voz mais robusta e aprenderia a agalinhar suas antigas esposas. Mas naquele dia Felinto apressou-se em fazer a vistoria no terreiro:  aninhou os pintos debaixo das chocas, recolheu os machos  e trancou-os num galpão, prendeu mais de vinte donzelas no local de costume e sentenciou: “Esse ladrão, assassino vai ter o troco que merece", saiu dizendo a caminho do roçado. Quando voltou, engoliu o almoço às pressas: começou a lavar a ferrugem do cano da espingarda, medir os diâmetros das rolimãs, a quantidade de pólvora e socou com uma vareta de aço toda munição necessária. E, para não revelar seu plano com tiroteios exagerados, naquela mesma tarde, testou o poder de fogo da velha carabina:  espetou um alvo improvisado na ponta aguda de uma estaca, recarregando-a para o dia da tocaia. A presença do invasor estava no ar e os sete dias, contados a partir do último estrago causado pelo carnívoro, já se completara. Mas tinha que acordar cedo e controlar os nervos, por que ladrão não avisa qual a arma que conduz nem a hora do ataque... No primeiro claro do dia, tomou um café mal coado e acendeu um cigarro “pé-de-burro”, feito de fumo de rolo, bem forte: as baforadas embebedam mosquitos e fazem vomitar até as tripas... Assentou-se num tamborete e não esperou muito tempo para avistar o pouso boçal do malfazejo, por quem as encarceradas deviam sentir atração, com suas visões lerdas e destorcidas. Trazia na elegância a estirpe de uma autoridade de alta patente militar, disfarçando sua instintiva violência. Seguro e pacientemente se coçava, tirava os ciscos que aderiram às penas do “casaco Sobretudo” e amolava as unhas compridas. Já lançara o olhar hipnotizador para o interior do chiqueiro, calando os bicos tensos das galinhas,  que tremiam  sob  o perigo.  Os cafifes migravam do antro e negrejavam em sua direção, tentando alcançar suas canelas: a coceira louca seria um castigo hilário, não corrigiria os hábitos de um fascínora, mas frustraria o plano do atirador. Estavam reunidas, mas não tinham fôlego nem tempo para consenso de assembléia: aos poucos, elas iam relembrando as companheiras que foram arrastadas pelo impostor. Mesmo no desespero, continham-se sem alvoroço: não se tratava, portanto, de uma invasão domiciliar, onde um jovem ousado e apaixonado, furtaria uma moça... De frente para o inimigo, porém, com a sensação covarde de ocultar-se, Felinto respirou profundo, fechou um olho e se posicionou, antes que o falso galanteador levasse para o mato, a franga mais carnuda do chiqueiro. De uma fresta mais aberta da porta desconchavada, sem dobradiças, apoiou o cano, mirou e apertou o gatilho, que fora várias vezes lubrificado. O gavião-galã podia desentrelaçar e arrancar algumas varas do chiqueiro– o que não faziam os maracajás nem as raposas sonsas –, e fazer sua refeição à sombra das catingueiras ou de frondosas umburanas, mas não teve chance: sentiu o tórax  incendiar e afundar-se com o peso do tiro fedorento e premeditado. O coquetel letal de explosivos, substituía a raiva daquele homem. O gavião era um rei destronado: o papo estava se vazando, estraçalhado, se emborcara sobre o peito cravado de chumbo. O bico roliço, afiado, forte como marfim, pingava: caíra de asas abertas sobre o teto das prisioneiras. As unhas rajadas se encolhera e o topete carnavalesco, cinza-claro, se despenteara. Voava com imponência e tinha a maestria de um exímio caçador de pássaros e preás. Felinto assassinou o equilibrista e mestre do vento: lançava seu olhar infalível para baixo e escutava o canto das galinhas se mexendo em capoeiras, oitões e currais.  Admirado e temível, demarcara seu território: pensava em sobrevoar outras freguesias da redondeza e cinicamente arrombaria outros chiqueiros. Depois de cada crime matinal, preferia um reinado recluso entre serras e penhascos, donde escutava os latidos vorazes dos cães e tiros de caçadores.  Os gaviões, frequentemente, rondavam os  arredores do terreiro e o agricultor prometeu a si mesmo vingar-se, intensificando as vigílias. Era preciso competir para sobreviver, desconhecia qualquer regra ecológica: “Quem disso cuida, disso usa”... E um ladrão sabe que um dia será flagrado, preso ou morto, mas o gavião também tinha as mesmas razões de Felinto...  Resolveu medir e pesá-lo: pisou na ponta de uma asa, esticou o bicho e a outra ponta passou de sua cabeça, que sem o chapéu podia medir um metro e setenta centímetros de altura. A tigela d’água começou a ferver e logo despiram o rei do agreste, que vestia lindas penas acinzentadas. Depois seria eviscerado à vista - não de peritos ou embalsamadores reais - , dos filhos pequenos e madrugueiros de Felinto: todos estavam admirados e alegres com a morte da celebridade, que pesou o equivalente a qualquer frango do terreiro. O gavião bem temperado, cheirava na panela de barro. Ficou igualmente gostoso às galinhadas de passadas datas extraordinárias... Dificilmente de almoços dominicais.





sábado, 21 de novembro de 2009

Galos coroados

 

















A crista que amanhece
carrega o sol (re)encarnado:
estrela coroando trovador.
Quando o galo morre
os raios de sol desfalecem
sobre os olhos de bolandeira.
Ouve-se a ruptura do universo,
onde explosão de sangue
coagula-se na galáxia da carne.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Bibi (en)canta


Quando Bibi Ferreira excursionou pelo país com a peça Piaf, nos deu oportunidade de assistir um dos trabalhos mais bem idealizados da dramaturgia. O Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa-PB, superlotou e as canções que mais  me marcaram naquela noite, foram L'Accordéoniste e Le Vie en Rose. A forte presença cênica da atriz  emocionou a plateia, embalada pelo irretocável repertório: Milord, Padam Padam, La Foule, Non je ne Regrette Rien e o antológico Hymne à L'amour.
Piaf, o espetáculo, cumpriu sua temporada em Paris, onde viveu Édith Piaf. A cantora faleceu nos arredores de Grasse, em outubro de 1963, aos 47 anos. Da amargura à glória: a menina ór(fã) que tinha as ruas como palco, à margem do glamour parisiense, tornou-se ícone de la chanson française.
Não pude reencontrar Bibi Ferreira In Concert nem quando rememorou a fadista Amália Rodrigues. Estranha forma de vida, Fado da saudade, Coimbra, Lisboa e Nome de Rua, são referências da canção portuguesa. Esses musicais  só foram apresentados nos grandes centros do país e ao público das maiores capitais do nordeste, como Recife e Fortaleza, dificultando a acessibilidade dos admiradores mais distantes. 
O longo vestido negro guardava o corpo miúdo de pássaro: o nome Piaf  veio do próprio canto e suas canções atenuaram os dissabores da França do pós-guerra: "flutuava como um Beija-flor na rosa..." 
Bibi plural: (en)canta (Piaf, Chico, Amália...), interpreta, compõe, toca piano e dirige... É comovente e bonito vê-la em suas incorporações teatrais, onde se ouve, também, a fala das mãos. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Essa Mulher
O Lp Essa Mulher, lançado em 1979, completou 30 anos em julho de 2009.
                                                                                                  
Há momentos em que - além da referência filosófica -, rememoro a trajetória artística de Elis Regina: recorto fotografias publicadas, faço colagens, vejo imagens na TV e toco velhos discos na vitrola...
Essa mulher de sorriso largo tinha a alegria do carnaval: voz afinada, braços agitados na batucada, Hélices girando, chamando o samba. Embora, contextualmente, seu canto fosse vinculado à brasilidade, incorporava-se e dialogava com os demais ritmos e tendências musicais de qualidade.
O palco era um lugar seguro, onde ela armou a lona do circo e entrou no picadeiro: o bobo da corte não entrega os guizos... Baixinha e bonita como as violetas, mas quando cantava erguia-se, gigantesca.
Rebentava-se roseira n'algum jardim em primavera, às vezes em erupção: explosiva, pimenta ardendo, acesa. Podia-se até dizer que ela se defendia com palavras ríspidas e imediatas, esbanjando munições cotidianas, mas seu projeto musical ia além das trivialidades, dando origem a uma artista comprometida com a humanidade, daí a necessidade de prosseguir contestadora e valente.
Tinha um comportamento arrepiado, mas abria brechas à ternura: revelava-se fortemente engajada à sociedade e contribuía para a renovação cultural do planeta. Era mutante, raro rebento de vida: desabrochava-se para não ser casulo.
E ninguém ousava detê-la na velocidade voraz de imprimir sua história. Acreditou em seu talento e foi à luta: cantava em ritmo de atropelar. E assim seguiu invencível, indomável, fez do canto sua verdadeira forma de  expressão.

Pontos acesos






























Por aqui, nessa região do curimataú, qualquer sinal noturno clareando o céu, dizem logo: "Isso vem da 'Barreira do Inferno' ", apontando para Natal-RN. Pode cair espaçonave, que simplificam: "é foguete"... Mas no inverno, se um vaga-lume passar por alguém, causa espanto e alarme: "Um disco voador..."
Estudantes que faziam o trajeto noturno de Nova Palmeira a Picuí-PB (e vice-versa), garantem que por várias vezes foram perseguidos por Óvnis, em retas e curvas da estrada:   esses objetos voadores não identificados, possivelmente, vêm de planetas do  nosso sistema solar ou de longínquas galáxias. Nos relatos do livro "Como Escapei do Triângulo das Bermudas", o autor afirma que há uma sucção nas águas oceânicas daquela região,  onde ocorrem os desaparecimentos: é um longo documentário... Essas luzes mudavam de cor e de tamanho e  muita gente ia fazer vigília no rio "Araújo", município de Picuí-PB. Outros grupos  se posicionavam na trajetória... Iam acompanhar a caminhonete Chevrolet, chamada de "Muda", quando a estrada era de barro e pedregulho. E as visões não partiam de uma só pessoa, até o motorista confirma o acontecimento. Não puderam testemunhar o fato para o público curioso: tudo ficou como história mal contada, exagero e sensacionalismo da juventude estudantil.  



II

Noite dessas, por volta das 20:00h, depois da "Serra Aguda", município de Nova Palmeira-PB, sentido norte/sul, um fusca a 40km/h, desce a primeira ladeira e uma luz de cor vermelha, esférica e pequena, pousa à esquerda, a poucos metros do automóvel e não se deixa ultrapassar: continua proporcionalmente adiantada. O pensamento era o mais veloz: a princípio imaginei ser  as luzes dos faróis refletindo em chifres de boi ou em olhos de coruja, mas a mais ou menos 300m resolve decolar e se alonga, cria calda de foguetão e vem por cima do carro, invertendo o sentido. O motorista não fez alarme, continuou a dirigir, mudo. E eu na expectativa, confuso,  mas atento à cena: "Viu essa luz na pista"? Ele responde tenso e intuitivamente: "Isso são fogos que vêm da festa da padroeira de Pedra Lavrada-PB". Quer dizer: ilusão de ótica, tocaias magnéticas, oscilação de raciocínio, porque a cidade para onde nós nos dirigíamos, estava a uma distância de dez km, em meio a  morros, serrotes e outras elevações na terra; seria impossível a consideração dessa hipótese. Avistam-se fogos de artifício, mas naquela ocasião não surgiriam em nossa frente. Levam-se em conta ainda, os detalhes  da trajetória do objeto e a sobriedade das testemunhas. A observação que faço agora, como conclusão, é a seguinte: concretamente um objeto pousara no chão com algum objetivo e recebe comando para decolar, então houve inteligência. Esse acontecimento não pode nunca ser tratado, pelos céticos, como fantasia ou invenção: "Há mais mistério entre o céu e a terra..." - alerta Shakespeare.



III

Era claro de pouco sol e a luz era cor de prata. Há cinco anos atrás, eu viajava com  outra pessoa, na estrada que liga Barra de Santa Rosa-PB ao Brejo paraibano. Depois do trevo de Cuité-PB, um pequeno sinal luminoso e alongado – em forma de folha prateada –, começa a se mexer, saindo do interior da terra seca, num descampado de barro vermelho: sem se avistar cristais ou objetos metálicos como justificativa. E ergue-se ganhando altura, multiplicando-se depois, formando hélices revoltas e inventando ventania no silêncio da planície.  Eram flexíveis e delicadas como tecidos de seda, um semblante ligeiramente gasoso e nada de folhas cortantes de alumínio.
A capoeira se povoara de esparsos pés de agave, com total ausência de lajedos, donde pudesse existir vestígios de extração de minérios.  Mesmo tendo, a mica, brilho e desfolhamento, não seria uma aparição extraordinária. Aqueles braços esvoaçantes dançavam um balé sobrenatural. Se fossem avermelhados, seriam labaredas de coivara ou despertar de vulcão. À beira-mar, seriam jangadas em campeonato de domingo e no mês  de fevereiro, alegorias de carnaval. Mas estávamos em plena caatinga: vegetação rasteira, cinzenta, num momento em que o sol se escondera, estava claro,  porém sem intensidade. Mas aos poucos, vão murchando, se enterrando onde nasceram. Aquela revelação me deixou com um olhar de perplexidade e impacientemente me adiantei: "Viu isso?" "Sim", respondeu quem estava ao volante. Depois seguimos pensativos, duvidosos e mudos porque não fora ilusão. Mais adiante pensamos em várias hipóteses: será que espírito se manifesta dessa maneira? Fogo-fátuo foi a mais provável.
IV

Na cidade de Nova Palmeira, quando um aeroplano despontou na serra, voando baixo, também disseram que era coisa do outro mundo. Mas era estratégia de políticos sobrevoando o pasto eleitoral: chuva de bandeirinhas, santinhos e vassouras de Jânio Quadros.

Um carro de passeio achatado, chamado "Baratinha", se encobria na poeira e nas longas ruas de Aveloz, fazendo muita gente se esconder nas juremas e marmeleiros, amedrontada.  E o medo de  automóveis na estrada perdura até hoje, porém, ligado a disseminação da violência.

E qualquer dia pousarão os marcianos e serão assediados pela população, pedindo autógrafos. Ou irão todos a Marte, como fizeram os palmeirenses mais corajosos num outro período eleitoral: o candidato a deputado Estadual era piloto de um avião Teco-teco e oferecia vôos panorâmicos aos  eleitores.


V
Terra-esfera flutuante, pista-pouso de pássaros lunares, cosmonautas e seres de outras rotas espaciais: o ar está cheio desses seres metálicos, quase apocalípticos, que invadem a privacidade e a paz celeste. É tempo perdido: vasculham, mas nada avistam, apenas a normalidade do cosmo. Quem desbrava o universo não são os caçadores: eles soltam seus robôs adestrados para farejarem o solo dos planetas, mas depois se engancham nos mistérios, "morrem de sede" e viram lixo espacial. Astronautas têm medo de altura, mas vão à Estação MIR, se extasiam e regressam a seu planeta: só Deus tem a visão e o controle total  do universo,  mas os homens insistem em voar mais alto.
O exercício de meditação me ensinou a reduzir a terra, sem precisar de viagem espacial. Não consigo ser somente terrestre, se tenho todo o cosmo pra desvendar: eu sondo(a).


VI
Numa tarde calma de verão, eu me sentei debaixo dos coqueirais da Praia do Cabo Branco, em João Pessoa-PB. O céu estava azul com longínquos torreões de nuvens na linha do horizonte. Eu as olhava, mas sem a ansiedade de trazê-las, apenas com a contemplação natural da paisagem. E a miniatura de um navio cargueiro deslizava em alto mar, rumo ao cais de Cabedelo. Não demorou muito, num mudar de vista, toda aquela imensidão se transportara e "caíra sobre mim", que eu quase virei da cadeira para trás com o peso sufocante do universo. Até o mar se derramou nos meus pés. Mas não teria sido eu quem fora de encontro às  nuvens? Depois que retomaram a posição anterior, foi quando avaliei bem a distancia... Não partiu de mim desejar essa experiência, no propósito de uma meditação astral. Tomando o assunto somente como exemplo: orienta-se ao indivíduo para não se amedrontar com a sensação prazerosa de desprendimento físico. Eu queria permanecer naquele estado transcendental, mas o medo desvencilhou-me daquela visão tão fascinante, inesperada e inexplicável.



VII


Crianças são anjos que pacificam os lares; formam e vão dar continuidade à família. Diante dessa perspectiva de enlace, sem se questionar o passo a passo da criação, são bem aceitas, desejadas: "Quero a casa cheia de filhos..." É um dizer em tom de juras de amor. O nascimento é a inclusão definitiva na vida e estatisticamente é um cidadão a mais, o resto é trajetória, história.
Mas, falando de crianças, um fato interessante, dito por muitos mais vividos, é que elas veem anjos, silhuetas, gnomos, vultos e outros movimentos. Eu já completara cinco anos de idade, quando vi vários  anjos aparecerem  no céu, às 14:00 horas: a visão preenchia o lado norte.  Mas puxando pela memória, não ouvi cânticos de louvor nem anúncios de trombetas: não eram figuras dinâmicas, aladas, que executassem dança nem outra coreografia. Também não estavam fazendo picnic, sentados sobre o algodoal das nuvens, onde só tinham o céu como guarda-sol. Hoje distingo bem aquelas imagens avermelhadas. Talvez uma pena espiritual tenha sido usada pelo pintor sacro, mas não havia moldura, fizera esses desenhos sobre o pano azul do universo.













Dança dos astros







Nesse dia tivemos que almoçar às pressas, por que ao meio-dia já estava escuro: o sol estava sendo engolido pela lua.  Tudo era visto à meia luz (ou à meia-lua).Viam-se os astros passeando, se roçando, no céu.  E ninguém explicava bem o que era, a assombração estava no rosto de todos. "Está nas Escrituras: são sinais do fim do mundo" - afirmava um vizinho. Lembro que meu pai disse a palavra eclipse: fenômeno tratado com medo pelos mais antigos, que tinham uma visão lendária sobre o assunto. 
No início do século XX, em 1914, o fenômeno foi total  e naquele mês, confirmando o mal presságio: teve início a 1ª Guerra Mundial. 
Ele era adolescente em 1939, morador da zona rural: vaqueiro aboiador, amansava boi a ferrão, tangia o gado à pastagem, puxava peito de vaca leiteira e outras obrigações da vida campestre... Relatou-me o camponês, que nesse dia muitos costumes noturnos foram antecipados: no terreiro, o galo se apresssava com seu canto urgente, recolhendo suas esposas ao poleiro, acendeu-se fogão à lenha e pôs-se mais querosene às lamparinas. As horas eram confusas e as trevas pareciam ser apocalípticas. Nessas comunidades rurais as informações  chegavam no "disse-me-disse": o rádio ainda era um veículo de comunicação precária, viam esses sinais no céu como se fossem a instalação do caos... E novamente se ouviu rumores de guerra: os nazistas, sob o comando de Adolf  Hitler, invadem a Polônia, iniciando uma sequência de atrocidades,  culminando com o genocídio de milhões de judeus, minorias étnicas e religiosas. 
Mas naquele dia, o eclipse anular do sol, transformou-se em espetáculo: a meninada correndo,  apontava estrelas, avisava a vizinhança... Hoje é que vemos com normalidade a dança dos astros, porque eles também copulam.



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Rosto d'aurora



Desde menino escuto falar em cometas. No ano de 1970, meu pai me acordou de madrugada, por volta das 04:00 horas, para avistar um cometa que se estendia no nascente: tinha uma calda quilométrica, um emaranhado de neurônios luminescentes e núcleo de estrelas multicolores, ilustrando ainda mais o rosto d'aurora.  A luz penetrante do sol, foi ofuscando aquela exibição. Vista com olhar infantil, sem maiores êxtases na retina, a imagem me arrepiou: indaguei muito meu pai sobre aquela aparição inusitada. "Experência dos mais velhos: esse ano poderá ser de seca ou  muito doentio", explicou ele, que dependia da chuva e da terra... Aquele claro, ainda hoje, se acende  na memória. Em 1986, quando teve aquela mídia toda com a aproximação do Cometa Halley, compravam-se lunetas e telescópios,  em todo o planeta formavam-se grupos em vigílias. No Brasil foi visto por poucos, no entanto, sondas espaciais de três continentes o saudaram. E da terra, quem o viu se espantou, por que os cometas - supersticiosamente -, vêm acompanhados de acontecimentos marcantes ou catastróficos, desde a antiguidade.  Astronautas abrem champagne em "camarote" espacial e assistem  ao espetáculo: mais parecido com o sol desabando, arrastando o universo. O nome veio do astrônomo inglês Edmond Halley, que calculou sua trajetória orbital. Mas os cometas regressam e os homens se vão... “Quando os mendigos morrem não há cometas à vista: os próprios céus anunciam a morte dos príncipes” - acrescentou William Shakespeare.






sábado, 17 de outubro de 2009

Nailza Henriques, essa mulher

Nailza: no quinquagésimo andar da vida


Deus dá o sopro inaugural e logo estreamos a vida. E quando nascemos, viramos unanimidade, acalentados por dengos e privilégios: sempre há alguém nos protegendo...
Crescemos sob o olhar orientador dos pais, além das bênçãos ditas em cada amanhecer: filho é mesmo uma dádiva divina! Desde os primeiros batimentos cardíacos a todo período uterino, o aprendizado é por sensoriamento. Há os que nada ensinam, relapsos com as crias que lhes foram confiadas. Outros ensinam errado, em meio a graves mazelas emocionais ou sociais. Há ainda os que exageram na formação dos filhos, talvez dando tudo antecipadamente, mas todas as informações são basilares e reproduzidas, desde a estreia à conclusão do ser. Há um dizer que cabe bem nessa avaliação: “Não se deve dá o peixe tratado, mas o anzol, para que se aprenda a pescar...” Mas o mundo é uma cilada, e um aprendiz tem que andar devagar, testando o chão, mãos nas  paredes, galgando, até ir-se pela casa inteira, e assim escrever sua história pela vida afora. Às vezes a tinta que usamos se acinzenta e falha, mas temos que reabastecê-la e prosseguirmos escrevendo o diário/vida, que só nós podemos acrescentar mais anotações...

Nailza Henriques, essa mulher, destaca-se no cotidiano e vai-se pela vida: vivendo o presente e escavando o futuro.  E se já bebeu vinho do Porto em solo lusitano, um dia ela chegará a Marrakech, a cidade vermelha e passeará pela sua Medina. Mas não saberá viver sem mostrar o rosto: a burca?  Um dragão de hena se enrolará em seu braço, tatuado?  Avistará o sol extasiante  do deserto  e calar-se-à em reza: sol, um dia, já foi Deus.  Ah, lá? E trará lindos tapetes,  almofadas e vasilhas de latão, tudo para decorar sua maison, a ser construída  num condomínio  encravado às serranias da terra-mãe. Há uma tendência à liderança, por isso se integra à sociedade,  até relacionar-se com o mundo. E o legado familiar é um forte traço, perceptível em seu dinamismo e comportamento: daí a derivação maternal de proximidade: Nailza filha de Nadilza. O trabalho ramifica seguidores cadastrados, sobretudo pela atuação no ramo de cosméticos  e perfumaria. Tem faro aguçado - distribuidora de aromas e exímia negociante -  adicionado à capacidade de agrupar-se, um ser humano sempre em evolução. A competência é o maior componente para sua permanência na atividade, refletindo, positivamente, quando na organização da vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O vento u(i)va























O vento frio uiva na serra
quebrando o silêncio
do vinho sobre a mesa:
desce a galope, sem rédeas,
vadio, avarento e solitário
recitando um monólogo louco.
A ventania é um noticiário
que corta  a noite, sem rumo.
















Pão diário


















Massa am(assa)da
em descanso vesperal:
milagrosamente
amanhece multiplicada
no bojo do alguidá,
que mãos maternas
vão modelando
o pão diário: ritual
de filhos em volta
da mesa matinal.






segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dia-a-(dia) da criança


O dia-a-dia de algumas crianças pobres: elas têm idade de crianças e obrigações de adultos. Depois dos cinco anos de idade, os meninos são presenteados com uma enxada amolada: vão à roça limpar o mato atrevido, que impede o crescimento da lavoura, onde passearão pelas ruas do milharal, alisando os cabelos das bonecas de milho. No mês de junho, no adolescer das espigas, é quando eles ousam despi-las, em ritual de colheita, não de núpcias:  deitam-nas no leito quente das fogueiras, aquecendo-as, embelezando-as para festa de São João.
À tarde, amparados pelas sombras, tiram uma madorna sobre o chão forrado com bisacos de estopa, comem rapadura de engenho (água na jarra), fazem os mimos derradeiros aos caules e voltam com feixes de rama: os bichos também choram... Outros são sentinelas em carvoeiras, olarias (alarmam incêndios) e no inverno estreiam novos galões de zinco.
As ir(mães) não dão o peito, mas dão colo, mamadeira de leite morno, mingau, trocam frauda e balançam rede... "Eles são filhos de criação dos irmãos mais velhos", dizem os mais próximos. Essas meninas nem brincam de casinha, porque já têm a casa imensa e seus afazeres... Algumas brincam "de bonecas" na normalidade da infância, mas todas imaginam um lar: improvisam móveis, acendem fogo (trempes de água a ferver) e batizam os brinquedos.
Mamulengos, bruxas de pano, bonecas e sabugos de milho, formam a família imaginária: esses estranhos vizinhos são nomeados parentes.
E  vão adquirindo uma visão maternal, têm uma forte tendência ao casamento prematuro: o desejo de serem mães é um projeto que cedo se inaugura.

domingo, 4 de outubro de 2009

La cantante del mar


Mercedes Sousa

Alfonsina Y El Mar

Composição: Ariel Ramirez / Felix Luna

Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.
Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.
Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.





quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mercadores


























Os galos caducos
de cristas pensas,
acenam às amadas
sob sentenças.

Os galos desfilam
ladeados por carrascos:
olhar de prisioneiros
em cortejo de holocausto.

Os engaiolados
resmungam poemas:
rua de compradores,
passos de feira.

Os mercadores
carregam gaiolas:
galos à venda
em beco de trocas.

Os matadores
amolam peixeiras:
galos calados
com suas tristezas.

Antigos feirantes
cruzando mercados:
galos despidos,
mãos em gargalos.








segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Botija do Mercado São José


a Marcelo Amorim

Homem que sonhou com botija, marcou encontro com o desconhecido na porta do Mercado São José, no Recife antigo. Aquele mistério lhe impacientava, mas se manteve calado à espera da suposta pessoa do além. Um camelô ficou olhando aquele homem de poucos movimentos, sem ação, perdido na cidade: "O senhor já tem muitas horas aí parado, tem rosto amarelo de fome e olhos murchos de cansado, se carece de ajuda, responda sem cerimônia". O sol por trás dos casarões deixava as ruas debaixo de sombra. À frente das lojas de miudezas e cosméticos, vendedores anunciavam as últimas promoções e ambulantes gritavam o preço das bugigangas importadas do Paraguai, muito poucas de Maimi.
O sertanejo comeu tapioca com coco e milho cozido com manteiga da terra. Depois respondeu sem rodeio, porque segredo torna o fardo mais pesado. Não pensou em consequências: "Duas noites se passaram, depois de um sonho, daqueles que o sujeito jura ser verdade. Uma criatura sisuda - vestia calça comprida como essa, diferente apenas nas bocas frouxas e agitadas -, disse-me que minha sorte estava aqui no mercado, mas não falou se era dentro nem fora. Mandou-me ter pressa nas pernas, viesse em qualquer transporte... E já mostrei muito minha cara, de tanto ir e voltar, a todos esses vendedores e suas clientelas, mas ninguém me conhece por cá: nada aconteceu ontem nem hoje. E olhe que vim de longe (mas só fazia apontar...). Sou homem de poucas coisas e não preciso de tanto. Mas essa promessa me levantou as orelhas, por isso avancei nas léguas e demoro nessas horas, mas só espero por hoje. A sorte vem quando quer, tem jeito de gente lerda".
Antes que ele terminasse o falatório, o camelô resolve lhe tirar as esperanças, talvez penalizado com aquele homem acocorado, de pés roliços de inchaço, que de vez em quando estirava a ossada, com gesto de penitente: "Isso não existe, vá cuidar dos afazeres, que eu sei de história igual. Aconteceu comigo mesmo e garanto que era voz limpa, imitando gente viva, sem ter a fala enrolada, sinistra, de gente de outras terras. Moro no bairro da Encruzilhada e assim que me deitei, a cabeça ficou zonza: dita voz me dizia que havia um tesouro em sítio distante daqui, e me daria por dono, sem confusão de herdeiros. Disse-me a voz doadora, que eu me apeasse em Caruaru, seguisse para o norte em estrada de barro, que antes de um serrote branco haviam cinco umbuzeiros, virasse à direita e caminhasse quinze léguas ao poente... Coisa dada é mais difícil! Apontou a direção, sem dizer nome de município nem marcou o canto certo, ficou para ser descoberto pela pessoa donatária:  encontraria uma pedra graúda, cor de galinha pedrez, onde uma cabra nativa costuma se deitar. Debaixo da pedra a botija, com objetos brilhosos como o sol. Só não fez dar nome às peças, dizer quantidade nem valor. Aí calou-se de vez, apagou-se como coisa acesa. E toda manhã bem cedo chego aqui nesse mercado: abafado, cheirando à sola curtida, jabá, plantas e cascas de chá, temperos e incensos de candomblé. Mas de vez em quando me afasto um pouco: farejo o mar aí perto, olho os navios estrangeiros descarregando no cais e algumas pernas roliças que estufam das mini-saias. Esse é um negócio de pouca venda, mas faço feira desse apurado. Esse boato de riqueza fácil é assunto já encerrado. Ia eu me perder pelo mato, sem ter o canto traçado por linhas certas? Deu-me isso 'de boca', talvez já tenha dado a outro da redondeza, morador mais precisado - há poucas braças da botija -, também sem papel passado. E caçadores esfomeados já devem ter matado a cabra...”
O sangue subiu às faces daquele que estava descorado: "É, isso é mesmo ilusão, já vou deixar o mercado", apressou-se o viajante bebendo o resto d'água morna do cantil. Entrou na rua Direita, em direção à rodoviária do cais de Santa Rita, porque acabara de escutar do camelô – da boca de pessoa viva, vendo a língua se mexer, sem embaraço de sonho –, as referências necessárias: o sítio, a pedra e a cabra eram o cenário da sorte tão esperada. O lugar era seu pasto, passado a papel de escritura, caminho de todo dia, na divisa de Princesa, aceiro de Pernambuco. Ao chegar em casa não esbanjou alegria, animou, discretamente, o rosto. E cinco bois cevados moveram a pedra a chicotadas bem dadas, daquelas que deixam os lombos ensaguentados e os pescoços com calos, peladuras e marcas de cangas. Cavou dois metros de chão e arrancou um caixote feito de madeira de lei, enrolado com tiras grossas de borracha e batido com prego caibral. Um machado foi usado para abrir a lenha do "baú" e as moedas deslizavam das brechas, como milho debulhado, desabando pelas bocas dos silos. Por debaixo do colarinho de sua camisa de mescla, sobre o peito tostado pelo sol nordestino, descia um rosário de contas brancas e azuis. E a tarde ardente já se aninhava nos lombos das serras, quando ele ajoelhou-se e rezou, ali mesmo, no pedregulho misturado de ouro.  Não pensou em vaidades citadinas: entrou no galpão e guardou  mais de duzentos quilos de moedas, em quatro barris, junto com cangalhas, arreios, cabrestos e outros acessórios. Entrou no curral, cortou palma e abasteceu cocheira. Já anoitecendo, debaixo do pé de jabuticaba, pôs-se a banhar-se numa bacia de ágata, com sabão caseiro, feito de sola cáustica e vísceras. É chamado à mesa: branca de leite, amarela de xerém. E dele não se escutou alaridos, festejos, anúncios nem alegrias esfuziantes daqueles que enriquecem. A mulher obedecia às mesmas discrições e os dois filhos adolescentes não ousariam divulgar a novidade na vizinhança escassa, mas podiam trocar alguns cochichos e inibidos sorrisos. Descansou uma semana: selou um burro de raça e duas mulas de força, depois de encherem a pança com pasta de caroços de algodão. Dividiu o peso das moedas em quatro sacos de estopa, misturadas com castanhas de caju e dirigiu-se à cidade de Caruaru-PE. Traria novas moedas convertidas, com bustos atualizados, porque aquelas exumadas, tinham em suas faces bustos e brasões imperiais, mesmo que no início do século XX, o Brasil já estivesse sob e domínio inovador da República e as marcas do império estavam (des)enterradas. O brasão e o selo do país estavam iluminados pelas estrelas do Cruzeiro do Sul.

sábado, 26 de setembro de 2009

Banho Grego


Cachoeira da Capivara, município de Nova Palmeira-PB

Castelo Rural

Castelo na serra da Tapuia, município de Santa Cruz-RN, construído por Zé do Monte.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pilão



Depois da safra ensilavam-se os grãos: armazenamento e reserva. O milho debulhado era misturado à areia, depois aguado. As pancadas da mão-de-pilão faziam o atrito e os grãos iam-se descascando: mungunzá.
Do café torrado no caco, com rapadura de engenho (e outras sementes adicionadas), nascia o pó que dava origem à bebida que aquecia as manhãs.
As plantas medicinais: alecrim, erva-doce, manjerona e manjericão, também iam-se triturando para os chás das curas.
Em revezamentos braçais,  pisavam-se carne-de-sol, jabá, temperos e  grãos de arroz-da-terra. No pilão da Casa Grande há marcas de duelos, de antigas mãos rurais e escravas. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Meninos do Sinal Fechado




Quando o sinal se avermelha
meninos fazem malabarismos:
equilibram laranjas, fachos acesos,
números circenses, improvisos.
Meninos que avançam em carros
pedem dinheiro, acendem charos:
calçadas são dormitórios
quando eles caem lombrados.
Planejam assaltos, cheiram cola,
dizem palavrões, brigam à toa.
Meninos rudes, não vão à escola,
aprendem a manusear pistola.