sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Alquimia

                                                     

1.
Mistura mística: unção
morna de água empoçada,
alquimia de minério e lodo.

2.
Do grande útero da terra,
moldados na lama da criação,
emergem vagarosos anfíbios.

3.
Na cacimba da mulher
vasilha se enche: cabaça
e lua num só caminho.

4.
No meio do mato
água e barro de artesã
à sombra de um cacto.

5.
Trincheira de musgos
guardiões das brechas,
jias vomitando música.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Congresso

O XII Congresso de Direito Notarial e de Registro aconteceu em João Pessoa-PB,  no Hotel Tambaú, de 15 a 18 de novembro, reunindo  cartorários de todo o Brasil. Na abertura foi oferecido, aos participantes, um coquetel na área verde do hotel. Já no dia 17 foi comemorado o dia do notário, marcado pela eleição que escolheu o Presidente da Anoreg nacional; sendo reeleito para o cargo, Rogério Portugal Bacellar: a continuidade  de sua atuação, à frente da associação, fortalece toda a categoria, que passa por  sérias transformações no setor.  O tabelião Germano Toscano é presidente da Anoreg anfitriã, e sempre esteve à frente da associação dos cartórios da Paraíba.
 Rogério Bacellar e Francisnaldo Borges

À noite, fomos recepcionados no Paço dos Leões, uma das casas de festas mais elegantes da capital paraibana, localizada no ponto oriental das Américas, Ponta do Cabo Branco. A orquestra Mistura Fina conservou a mesma estirpe, agradando a todos com seu repertório re(fina)do. Tudo estava muito organizado. Antes do jantar foram entregues Comendas aos palestrantes e outros convidados. A festa seguiu glamurosa, onde destacavam-se:
a ex-presidente da Anoreg, Léa Braune Portugal, uma das homenageadas; ladeada pela design de jóias, Miau Valadares.
Miau, Francis e Léa Portugal, no Paço dos Leões

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

(Za)galo

Zagalo zangado
no campeonato,
(Za)galo rosado
em tarde de sol:
gritando tetra,
exigindo gol.
Zagalo corre, sorri
eufórico/metafórico:
“vão ter que me engolir”.
Caras e carros pintados
 - cores brasileiras -
gritos, apitos, bandeiras.
Golaço! Brasil campeão!
Romário, Bebeto, Dunga...
No campo rola samba,
mulata (re)bola bunda.

Imagem: blogconsultoria.natura.net

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Cítara


O vento dedilha cordas de chuva
e uma cantiga escorre do céu:

c
í
t
a
r
a.


imagem: onthee.blogspot.com

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Beba com Deus


Então bebamos com Deus
o vinho derramado de graça:

rio tinto amanhecendo
em cada olho de taça.


Imagem: Borges

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"O morro não tem vez..."


















A favela é uma colmeia
possuindo o morro:
vidas dependuradas,
abismo da fome,  globo.

Céu-(mar)anhado,
tiros, apitos, difusoras;
milícias, chão minado,
fugas rápidas,  (tiro)lesa.

O azul de São Conrado
é o domingo de piscina:
crianças lavam os olhos
vermelhos, tesos de resina.

Fogo cruzado: polícia
ladrão a-vista , chacina...
Rocinha utópica, bélica,
modelo de miséria latina.



 Imagem: entreparticulares.com.br

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Duelo matinal

1.
Coreografia de espadas
mãos em duelo matinal;
tecelãs penteiam madeixas,
batem a cinza do sisal.
Mulheres campeiras
lambem foices, comem folhas,
baçaço, colhem cabeleiras.

2.
As fibras são vísceras
tomando banho de lua
escorrendo nos varais;  
espantalhos sem corpos:
saias dançando valsa
na corda-bamba, orixás.

3.
Na feira do sábado
a-corda bruta enrola-se
à pele de sacos e fardos;
na festa do prado:
voar de serpentes
laçando cavalos.

4.
Cordas/correntes:
de enforcamento
de salvamento;
cabrestos de condenados,
aviamentos, adereços
em tornozelos de escravos.

5.
Vassouras são diaristas
espanando chão/céu de casas;
brancas escravas, bruxinhas
sem poderes nem asas,
escondidas atrás da porta: 
sujas, tristes, sozinhas.

domingo, 15 de agosto de 2010

Quando adormece a lua louca


A tarde daquele dia fora mais tensa: a mulher estava molhada de suor, arranhava-se; a boca seca espumava, escondendo o  Herpes; pronunciava nomes estranhos, supostamente de entidades do candomblé e dezenas de palavrões habituais, aparentemente possessa. Os irmãos se alvoroçavam tentando segurá-la sem brutalidade, mas ela caiu sobre os calhaus do terreiro e sofreu um raso corte no couro cabeludo. E dava passadas largas, pulos, querendo entrar no juremal e cair no precipício das barreiras: escavações feitas por antigas correntezas. O pai não hesitou em amarrá-la à cama de varas; depois jogou água fria na cabeça e pó de café no ferimento; pôs-se a rezar orações fortes: Credo em cruz, rosário apressado e um palavreado que expulsa espíritos malignos. Entregou-lhe uma caneca de chá de erva-cidreira, que ela arremessou na parede de taipa e um cheiro de terra molhada subiu do barro aguado. Mais tarde, à noite, depois da reza, ela estava menos agitada, mas ainda se impacientava: olhava com olhos mais acesos, porém, menos ligeiros, investigando as dimensões do quarto esburacado: depósito onde se dispensa  lixo e solidão. Chegou a comida feita sem muito zelo: hora dela praguejar aquele que lhe entrega o prato...
É flagrada coberta de um roseiral exagerado de molambos emprestados, que além da sebentice, se agacham à procriação: baratas, grilos e carochas. O cabelo é um antro de parasitas, avolumando-se sobre a cabeça miúda, e os olhos marinhos amanhecem, diariamente, delineados de lágrimas e barro; maquiada pelas unhas de um “carrasco”... Os lugares limpos, que mesmo sendo de uma casa humilde, foram-lhe negados: construiu-se esse, desmembrado, junto ao chiqueiro dos porcos, afastando-a do convívio familiar.
A noite parecia ser uma grande várzea, de onde minavam veios de luar. E luas meladas, também eram avistadas nos olhos pacientes do cachorro Charel: abandonara o jeito bandoleiro; apenas cumprimentava as fêmeas no cio; zelava o território sinalizado pelo cuspe da mulher e desaprendera a zanga dos cães vigilantes e ferozes. Quando ela passava, carrancuda, ele estirava a língua comprida, tentando, carinhosamente, alcançar suas canelas cinzentas e arranhadas, mas era desprezado.
Numa noite incendiou o sinistro aposento; mataria os insetos do convívio, e imaginários visitantes, invasores da memória. O quarto era um esconderijo sem porta, onde ela pouco permanecia, e quando a noite era de lua clara e a “lua da inquietação” já adormecera, ela despia-se e atirava-se à estrada rural, ao vento, cantarolando velhos boleros; os que dançara com o homem que perdera... Além da liberdade fugaz das estradas, a louca nua orbitava na misticidade da noite; imaginava que a lua loura fosse o planeta da mudança, e que um dia voaria para lá, como fez o ‘Pequeno Príncipe’ em seus projetos espaciais.  
Mas, no raiar do dia, ela deixa os ninhos improvisados e volta, arranhada, descalça, tonta de sono, nas portas dos vizinhos, pedindo água, café e novamente cai no calabouço do abandono.
E com o passar dos dias, deu-se a cavar barrocas e fechar a estrada com pedras, galhos e facheiros. Depois começou um exercício diário de cortar lenha, roçar o mato mais baixo, abrindo caminho na caatinga: “Medo faz ela cansar-se  demais e esgotar-se das últimas forças; vai-se assim até chegar em Caicó?”, disse o pai, ao vê-la sumir na trilha estreita e desalinhada. Não atinava em amolar a foice carcomida, que já sem curvatura, criara dentes no gume, retardando o avanço do projeto: pôs-se a quebrar cipós, não lhe interessava a estética do caminho. Não dirigia-se mais às rotas conhecidas, inconscientemente, esquecia as veredas esquisitas do lugar, onde tanto se perdera...
E, um dia ela não voltou do roço, alcançou a BR e chegou à cidade: esmolambada, quase nua, pele descascada do sol, pés rachados e furados de xiquexiques, cambaleando de fome, como uma cabra velha, perdida no pasto alheio. O cabelo arrepiado, desbotado, afogueado, cor de “burro quando foge”: um emaranhado de folhas secas e flores azedas de catingueira. A mulher tísica oscilava entre o hilário e o triste: “Essa coitada devia está pescando piaba ou plantando capim, atolada em bojos rasos de açude ou vem cruzando serras, fugitiva de uma longa  servidão”, diziam os que conversavam, no cair da tarde, sentados debaixo das algarobas. 
O pai cansou de ir buscá-la, à força; pedia a ambulância ao prefeito e carros a conhecidos, mas ela sempre fugia do sítio. Agora queria as cores das casas, os vestidos das mulheres, os cigarros jogados no meio-fio, os copos louros de cerveja e os irrisórios presentes que ganhava. Contudo, a andarilha foi aceita pela maioria dos moradores da  Macondo paraibana acertou com o bebedouro público, de água salobra, mas evitava banhar-se: mergulha nos poços fétidos dos esgotos que deságuam; onde ao invés de limpar-se, unta-se de lama e lodo; entra na cidade com o aspecto de uma guerreira tribal. Mulher de eterno silêncio; às vezes, quebrado por eventuais crises de desaforos;  impõe respeito apenas com a presença fuçada e desgrenhada, transitando como qualquer cidadã.
Acostumou-se a sorrateiras invasões domiciliares: abre torneiras, recolhe lixo, mija, caga, e naturalmente, sai de cabeça erguida, sem olhar para os estragos, como se vivesse num mundo sem ética, costumes, normas e leis. Deu-se a selecionar o lixo amontoado nas ruas: litros, facas, garfos, pilhas, sacos, latas, óculos, bijuterias descascadas e fedorentas. Despeja frascos com resto de Alfazema sobre  os cabelos tesos, e espreme os desodorantes nas axilas barbudas: urbanizada lição de vida. Mas começou a andar pesada de cordões, colares, pulseiras, anéis e relógios: balangandans somente usados pela cantora Carmem Miranda. Não usa chapéu nem turbante, mas arrisca-se em caminhar sobre sandálias Plataforma, resvalando nos paralelepípedos; vestido lânguido, batom lambuzado, unhas vermelhas e sujas, carregando o sol na cabeça. Ninguém a ouve cantar enquanto escuta a zoada da cidade; a  louca nua se esquece de se encontrar com a lua, derramada nas calçadas, nascida agora, tão perto, na esquina alta da avenida; respira o ar citadino: mistura-se à multidão das festas municipais, missas, comícios, passeatas e moto-lama. Demora à frente de bares, atraída pelo som histérico dos carros. A cidade não sobrevive sem palhaço, bode expiatório e “bobo da corte”, mas somente as pessoas do lugar são avacalhadas pela rapaziada; portanto, nenhum apelido pejorativo foi atribuído à querida intrusa, que caminha “linda e loura”.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Mestre-Sala



  Locutores espalhavam suas vozes em noticiários. O circo acampava nos aceiros de pequenas cidades, e o palhaço saía às ruas anunciando o espetáculo da noite. Vicente Celestino cantava com voz melódica e robusta. Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Augusto Calheiros e Sílvio Caldas reuniam multidões; Cauby Peixoto, Linda Batista, Marlene, Nora Ney, Isaura Garcia, Dalva de Oliveira, Ângela Maria e Elizeth Cardoso, eram as grandes vozes nacionais mais ouvidas no rádio.  Luiz Gonzaga, pernambucano de Exu,  se destacava em seu gênero musical, o forró pé-de-serra. Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo, seguia seu sucesso carioca. Flávio Cavalcanti, Ary Barroso, Abelardo Barbosa (o Chacrinha), Sílvio Santos e Hebe Camargo eram os melhores apresentadores do país. Raimundo Asfora e Ronaldo Cunha Lima, destacados oradores paraibanos. Atores de televisão e teatro eram Paulo Gracindo, Paulo Autran, Cláudio Correia e Castro, Walmor Chagas, Cacilda Becker, Fernanda Montenegro e Laura Cardoso. Comediantes eram Dercy Gonçalves, Grande Otelo, Oscarito e Mazzaropi.  O rádio era o grande comunicador; contudo, as vozes marcavam época e isso, diretamente, o influenciou.
Adonias Gomes Medeiros, 81, filho de Adauto Ezequiel (in memoriam) e Elisa Maria de Jesus (in memoriam),  falecida em maio de 2007, às vésperas de completar um centenário. Aprendera a falar ao microfone no tempo em que se ouvia difusora, e estreou na locução em período eleitoral: tudo começou na primeira campanha que marcava a emancipação política da cidade de Nova Palmeira-Pb. Em 1963 candidataram-se Severino Veriano dos Santos (in memoriam) e Eronides Vasconcelos (in memoriam) – PSB e UDN –, dando origem a uma série de comícios na cidade e na zona rural. E o ex-prefeito, conhecido como Nego Caetano, morador da mesma rua, rememorou: “Tomei posse em 01 de janeiro de 1964 a 1968, quando Nova Palmeira-Pb era um povoado com 80 casas, no máximo”.
A voz inaugural ganhou fôlego, tornou-se a mais ouvida no lugar: se pronunciava na tribuna da Câmara Municipal, angariava donativos em dia de feira, convidava o povo à  missa, enterro, passeata, cinema e demais avisos: “Eu ouvia as rádios para ir adquirindo experiência. E dizia muitas palavras erradas, fui aprendendo com o falar daqueles locutores. Não ligava com as correções, seguia adiante, sem me intimidar”, justificou. Outro serviço de locução chamado  “Voz do Município”, também era oferecido pela Prefeitura Municipal de Nova Palmeira-PB, sob a direção de Antonio Francisco dos Santos (in memoriam). As difusoras eram instaladas em cumeeiras e marquises, para melhor propagação do som. Durante passeio, em praças e calçadas, podia-se receber recados e mensagens musicais.
Ele próprio soldava os transistores de suas máquinas falantes. Nessa região ouviam-se mais as rádios  Brejuí de Currais Novos-RN, em noticiários e “mensagens”, na voz do repórter Eliel Bezerra; Caturité  de Campina  Grande e  Tabajara de João Pessoa-Pb. Os amantes do futebol ligavam-se nas rádios Sociedade da Bahia e Globo. E as moças que liam fotonovelas nas revistas Capricho, Contigo e Ilusão, colavam nas paredes, fotografias de Eva Wilma, Arlete Sales, Regina Duarte, Tarcísio Meira, Glória Menezes ... Aguçavam seus ouvidos e ouviam as novelas pelo rádio: “Irmãos Coragem” e “O Direito de Nascer...”  Mas os receptores de rádio: ABC, Campeão, Telefunken e SEMP, gradativamente, saíam do mercado, com o advento do Rádio estéreo  FM. Vitrola, Radiola, Som 3 em 1, Gravador, Vídeo Cassete, Wakman, Sister, DVD, MP3. A internet é a grande vilã da  evolução tecnológica, com diversas modalidades de som e comunicação.
A bebida sempre foi predileção, mas os rapazes do lugar a utilizavam como atração: mesa enfeitada de cerveja. Tempo de calça de Helanca, jeans Topeka com “bocas-de-sino” e nesgas, camisa de Volta ao Mundo, sapato Cavalo-de-Aço e cigarro “da praça”, Continental. Os olhos acrobatas giravam e os galanteadores se dirigiam às moças: acertavam os passos e se misturavam no salão, sob o olhar do Mestre-sala, que não demora a alfinetar laço de fita no bolso do cavalheiro, ingressando-o à dança: ninguém escapava daquela cobrança, cota. As damas da noite tinham “passagem livre” e estreavam suas roupas: vestidos de mangas bufantes, em tecido Pele de Ovo e Chemisier, com blusa Cacharrel. Cabelos altos, ondulados com laquê de breu, sobrancelhas finas, riscadas a lápis e rostos carregados de pintura. Algumas usavam perucas modeladas e brilhantes. Mas, em épocas mais atrasadas, especialmente em bailes rurais, eram obrigadas a dançar com todos os pagantes, não podiam “dá corte”, senão eram expulsas do salão. Os Suarês – como chamava a juventude à época, disposta a largar todos os afazeres –, animavam as noites de sábados e domingos. O gosto pela dança, daquela geração, começou naquele pequeno salão, onde nasciam os pés-de-valsa.  A noite de São João era muito animada e o Salão de Adonias superlotava. De madrugada, na hora de “marcar” a quadrilha, o mestre-sala exigia disciplina de pelotão militar, mas logo ouvia os gritos que avisavam a “queima” das coreografias juninas. E seguia: “Anavantú , Anarriê”.
Ele comprava todos os lançamentos do ano: Zé Calixto, Trio Nordestino, Os Três do Nordeste, Abdias, Marinez e Luiz Gonzaga. O Carimbó, cantado por Eliana Pittman,  também  foi bem aceito. Mas os sucessos de Celly Campelo foram, rapidamente, absorvidos pelos jovens: onda apelidada de Kokota. As Frenéticas, John Travolta e Olívia Newton John trouxeram um ritmo mais avassalador: a discoteca; literalmente eram Embalos de Sábado à Noite. No entanto, a Jovem Guarda, oscilava com essas transformações, mas o gosto pelo ritmo perdura até hoje: Roberto Carlos, Vanderléia, Wanderley Cardoso,Jerry Adriani, os Fevers, etc., são rememorados pela paixão nacional. Adonias, definitivamente, interessava-se pela dança de raiz,  o forró. E o disco de vinil, descartado com a chegada do CD, ainda hoje é vendido e ouvido: lembranças escavadas  dos arranhões  da "broa", com cheiro de forno antigo.
O homem e a venda: começou com uma pequena bodega, onde vendia bebidas, cereais, miudezas, gasolina, e como não havia farmácia no lugar, vendia até medicamentos: Cibalena, Cibazol, Melhoral (analgésicos) e soro antiofídico. Era ágil e versátil no que fazia: vendáveis, também, eram filmes e bailes. No salão do arrasta-pé eram exibidos os filmes, em rolos, projetados num lençol branco, pregado à parede. Depois de colar a fita partida, ele antecipava algumas cenas. Mas filme de sexo explícito jamais foi exibido, em meio às proibições e limitações gerais da época.  Quando atores trocavam carícias, ele punha a mão à lente de projeção, mesmo que obedecendo a lei da censura, quanto à entrada de menores. De fato, causava descontentamento ao o público masculino adulto, que queria ver aquelas mulheres semi-nuas e carnudas:

“Antes, eu tinha que assistir aos filmes e ter idéia do roteiro. Havia fiscalização e eu ficava atento às cenas mais ‘pesadas’; ainda mais porque as legendas, geralmente, eram em inglês e eu adiantava algumas delas, para o povo ir entendendo a história”, acrescentou.

A paixão de Cristo era vista em silêncio, com muito respeito. Exibida na cidade e na zona rural, muitos imaginavam que fossem cenas reais, raríssimas pessoas sabiam da indústria cinematográfica. Ainda hoje ouve-se do público: “Esse é o Jesus de verdade”, embora não fosse ele um ator;  protagonizou  a história que mudou a humanidade. A platéia se emocionava e a maioria das mulheres chorava muito, como fizeram as moradoras de Jerusalém. “Já exibi filmes por toda a região: em cidades e sítios vizinhos, até no Cine de Picuí-Pb, dirigido por Aldomário. E, depois de seis anos, com o avanço da tecnologia, resolvi parar com a atividade”.
Os canais de televisão, que além das novelas, se diversificavam com melhores programações e  imagens, sobretudo, porque o cinema estava em cada casa; junto com a TV a cores, o advento do vídeo cassete e da antena parabólica, gerando a escassez de público.
Não tinha a fama de um grande inventor; no entanto, ganhou popularidade, quando o povo teve acesso às imagens protagonizadas por Teixeirinha, Mary Terezinha, John Weyne, Django, Charles Chaplin, Sophia Loren, Giuliano Gemma, Gigliola Cinquetti, Charles Bronson e outros astros nacionais e hollywoodianos. “Um Dólar Furado”, “O Ébrio”, “Travessia de Cassandra”, “O Grande Ditador”,  "Dio Come ti Amo", "Meu Ódio Será sua Herança", "Dois Homens em Conflito" e muitos outros faroestes, são os filmes mais lembrados:  “Tenho admiração pelo ator Alex Prado” – acrescentou Adonias, que ao invés de filme de rolo, possui um DVD do ídolo.
Não era uma pessoa comprometida com a cultura, mas foi se misturando, convivendo com a informação. Agora, a música se esconde no quarto de dormir, que mesmo sem erudição, se ritualiza: sossega seu espírito em meio à zoada (sono)ra. As máquinas, até hoje, não podem parar: o microfone no pedestal e fios interligados a auto-falantes e antigas difusoras:  “O som de Adonias está ligado” –  dizem os vizinhos.
Em 1969, na primeira candidatura de Bento Coelho Pessoa, nasce o homem público, optando por seguir em linha reta, evitando a tortuosidade da mentira,  demagogia e corrupção: vestimenta característica de alguns políticos. Havia força e expressividade em seus dizeres, argumentava suas idéias com domínio e mantinha-se seguro na oratória; época em que não se ouvia, de nenhuma distância, a voz do povo. Adonias Gomes, o vereador, destacava-se na Câmara Municipal "José Bezerra", onde era visto com respeito, chegando à presidência daquela por um período de quatro mandatos, seguidos de uma prorrogação de dois anos, somando dezoito anos de atuação. Ali ele falava em tom maior; sua voz era um instrumento de denúncia.

“Durante esse tempo de vida pública tive dois mandatos sem remunerações, porque o poder Legislativo era vinculado à Prefeitura; não tinha recursos próprios. Cheguei a ser apelidado de "espinha de garganta", quando eu não votava alguns projetos considerados anticonstitucionais. Explicava isso aos demais vereadores, que desconheciam a lei, e terminávamos chegando ao acordo. Mas, por outro lado aprovei, aproximadamente, quatrocentos deles, a bem da comunidade, porque sempre estive ao lado do povo, não de prefeitos”.

Como reconhecimento unânime do Poder Legislativo, na gestão de 2008, o aposentado foi homenageado com o título “Plenário Adonias Gomes", e na ocasião rememorou sua atuação naquela casa: “No dia em que eu assumi meu primeiro mandato, ao sentar à cadeira, senti-me como um menino em suas  lições primeiras, um aprendente da carta de ABC, porque nada entendia. Mas fui me interessando e aprendendo, simplificou.
Honestidade e honradez: ele andava lado a lado com essas virtudes, representava uma safra de homens sérios, esses que  foram secando, se extinguindo pelas eras politiqueiras, dando origem a uma geração de políticos, demasiadamente, relapsos e corruptos em administrações afora, cevados pela prática da promiscuidade política, que tanto macula a sociedade brasileira e que perdura até os dias de hoje. E que mesmo havendo algumas cassações, essas punições pouco diluem a disseminação desses males; um ciclo vicioso que talvez nunca se feche; amparam-se na justificativa de que estas mazelas são secularmente praticadas.
Mas Adonias não teve uma passagem pública repudiada por esses desconcertos; admiravam-no como legítimo representante de sua comunidade. E falarão mais dele, mas de alguém que acrescentou e isso será seu maior legado.



Imagem: loscorotos.wordpress.com

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O passarinho
O pardal desce a escadaria e busca a mesa: belisca nozes, pão de centeio e poucas uvas verdes, mas retorna ao quarto, pela mão estendida de Sarapo. Minutos  depois, o pássaro miúdo e franzino, bico entreaberto, pia(f) e cala-se.  Estava no repouso dos Alpes, não sob uma marquise ou  qualquer lar que lhe fora oferecido por piedade. Era aquele pássaro que criou-se cantando sob os arvoredos das ruas parisienses e que ganhou o nome de Môme Piaf, escrito por Laplée; tornando-se o grande pássaro da canção francesa, sob os cuidados de Asso, que a conduziu  como Edith Piaf. À luz da cidade amada, Paris a viu na amargura e no glamour; no entanto, acordou de luto: morte ocorrida nos arredores de Grasse. Insistia em cantar: quando não podia subir ao palco, levavam-na nos braços. E foi-se, assim, de lábios secos, querendo beber a última canção.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Desenhos do mato
 a Nivaldete Ferreira
Achados arqueológicos na era da cal(s). Os baixos-relevos esculpidos nas pedras, preeenchidos de caliça? E sendo à beira da estrada, e época de eleição, é perigoso que políticos contratem letristas para suas propagandas eleitoreiras, sobrepondo os rupestres. As figuras que habitam o museu do mato, talvez amedrontem esta civilização: são serpentes, touros,  gnus, emas, águias, crocodilos gigantes e longas cabeleiras. Os relacionamentos eram também expostos: dança, lutas, armas... Quem os desenhou nas lousas dos rochedos? Além da passagem dos fenícios, outros nômades pisotearam esses penhascos, em período de caça abundante, e de uma rudez necessária. Do caminhar gelado pelo Estreito de Bering, possivelmente, deu-se o povoamento das Américas. Não havia tijolos, palha de sapê nem  ocas padronizadas: paredes só a do tempo. O fogo foi  uma grande invenção, mas é provável que  essa gente já trazia carne assada nos matulões. E como não se construía açude, mamavam  nas pedras ou em vertentes que corriam nas tubulações de um certo  arbusto frondoso. Tudo vinha das pedras, mas não se usava vender nada, nenhuma moeda circulava nem mesmo a troca, por que nada se tinha a mais. Os mais temerosos supõem:  não  foi gente dessa bola de serras; talvez gente-bicho comendo gente. Há quem fale em marcianos ou outros turistas galácticos. Será que um espírito garimpeiro levou nossas ametistas e esmeraldas? Mas então havia  rei precisando de mais brilho na coroa, e mandou pedras graúdas: meteoros e skylabs para matar esses povos. Moradores de hoje têm apenas uma visão colonial sobre o assunto: caçadores encontraram a casa dos índios, mãos de gente como a gente... Mas o latifúndio não pertencia a nenhum senhor de engenho ou fazendeiro, ausentando a marca brutal da servidão. E gente já de costumes, rituais? As pedras esculpidas ou desenhadas, subdividem-se em altares, lajes e rasos pavimentos. Pinturas que não descascam, arte milenar, alquimia: leite de pinhão, pó de pedras, minérios e sementes, sangue  e gordura de animais: ficavam dias iguais, de sol e sereno, antes do pintor registrar suas experiências.
E muitas histórias vão conscientizando a população. Trabalhadores escavavam um tabuleiro, juntavam pedras de toda cor: cabras pastavam sem cercas e uma parede, comprida, foi erguida, além das altas torres de aveloz. E começaram a comparar tamanhos e larguras das peças: eram filamentos pontiagudos, retângulos carcomidos, pedras calcárias ovais e roliças... Mas uma delas chamou atenção: a suposta pedra apenas fora possuída pelo barro mesclado, que logo foi removido, e definiu-se um crânio. Então, as ossadas, eram mesmo de preguiças gigantes.  O solo é dia a dia escavado: plantação, mineração, enterros diversos, construções... Uma  grande parede erguia-se entre dois serrotes, formando uma barragem, e o alicerce central recebia muito material disperso e resistente. Mas  enquanto se aprofundavam as remoções, homens arrancaram rótulas, tíbias, ossos inconfundíveis de dinossauros. Noutro local, com o mesmo objetivo, vieram as cheias, e os rupestres, até hoje, estão submersos, desbotando no porão do açude. Contudo, as pedras são misteriosas, e suas inscrições têm uma conotação de recado à humanidade.  Esses monumentos escondem sinais  pouco decifráveis, divulgados pelo tempo; alguns são catalogados mundo afora, outros são apenas apontados por bem intensionados guardiões. No entanto, a idéia não é mais preservar o homem, talvez já destruído pelas contingências da própria existencialidade. E se é tão difícil assim sua reabilitação, cuidemos das pedras. 
 

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Elis natalense





































Notícia: ainda esse ano Natal vai sediar a Exposição "Francis rememora Elis Regina", quando o poeta apresentará seu acervo, avaliado como o mais completo do nordeste. Tributo a Elis é tema do seu livro Imagens Eternas: lê-se uma reportagem em tom poético. A mostra  enfatiza os 30 anos de "Saudade do Brasil", espetáculo que estreou no Canecão-Rio, e o álbum duplo; trabalho que marcou, profundamente, a carreira da artista. Saudade no Brasil, é como parafraseia o poeta: "Elis sentia saudade do que estava presente, a  ser conquistado, época com fortes resquícios de ditadura. Além da valoração a costumes e épocas, o show respirava brasilidade: do cenário verde-amarelo de bananeira, choro-repertó-rio. 'Lembro assim com saudade, lembro por acreditar, se muito vale o já feito, mais vale o que será... Quando o  cansaço era rio...' Ainda em 1980, a TV Globo exibiu a série Grandes Nomes, que caracterizava uma extensão do que fora visto no Canecão. Saudad'elis!' ". Contudo, a expo trará à tona a trajetória da maior cantora da MPB. 





  

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Flor sintética



































Beija-flor invade edifícios
procurando antigos ninhos;
arrisca-se no precipício
onde colhera amores.
jardim sintético: bebedouro
açucarado de flores inodoras.
Equilibrista girando hélices,
pairando no fio nu, armado
no abismo de concreto,
entrançado de fios elétricos
não galhos da mata atlântica.


sábado, 1 de maio de 2010

Memorial




















Memorial: a casa guarda
antigas lembranças rurais:
arreios, cangas, chibatas,
gamelas, esporas, arreios 
e luas encolhidas de alpercatas.
O baú é um sarcófago,
onde rudes ferramentas
enferrujam-se: cadáveres.
Em gancho de armar rede
o chapéu é uma flor mofada,
um murcho sol guardado.